Turma de puxa-saco

Turma de puxa-saco.


Embora os fatos relatados a seguir tenham realmente ocorrido, por motivo de segurança jurídica as cidades e os personagens envolvidos neste texto são obras de ficção.
A exemplo do que ocorre em várias cidades do interior, a pescaria em Mato Grosso do Sul era o assunto único daquele grupo de amigos de Esperança do Norte. Trabalhavam o ano todo (alguns…) e faziam jus à merecida aventura pantaneira. Tudo estava muito bem organizado: cerveja, comida, cerveja, tralha de pesca, cerveja, remédios, cerveja, e….cerveja!
Depois de uma longa viagem, enfim chegaram ao paraíso esperado. Descarregaram a muamba, organizaram os quartos e, como ninguém é de ferro, iniciaram a degustação do extrato de cevada.
No dia seguinte, alguns mais fanáticos partiram para a pescaria embarcada, guiados por experientes piloteiros nativos. Outros, porém, preferiram pescar nas redondezas do acampamento, a famosa pesca de barranco. Dessa forma, estariam bem próximos dos suprimentos e, claro, fazendo o controle de qualidade das cervejinhas, que deveriam estar trincando quando os pescadores embarcados retornassem famintos e sedentos no início da noite.
A pesca de barranco tem algumas particularidades: a pessoa tem que saber escolher um bom local, baseando-se na movimentação das águas do rios, para evitar os fatídicos enroscos que só causam prejuízos.
Pois bem, estavam todos esses amigos de Esperança do Norte bem instalados em posições estratégicas. Agora só faltava combinar com os peixes, qual seria o cardápio por eles preferido: tuvira, minhocuçu, caramujo etc. Sempre o tipo de isca é aquele que não foi levado pelo infortunado pescador e que deve ser comprado no local da pescaria, agitando o mercado paralelo que dá suporte aos pescadores.
Essas pescarias não são exclusividade de apenas alguns pescadores – verdadeiras colônias se encontram povoando as margens dos rios pantaneiros.
Os amigos então iniciaram a pescaria em seus cobiçados pontos estratégicos. Estavam ladeados por outros pescadores vindos das mais diversas localidades. Um deles iniciou um papo dizendo ao representante de Esperança do Norte que seu colega, situado logo abaixo e em um ponto de pesca muito ruim, era um Promotor de Justiça.
Parece que havia caído um raio no local, pois o Tonhão levantou-se de um salto, limpou muito bem o seu assento e dirigiu-se ao promotor:
– Dr…por favor, venha ocupar esse meu local de pesca. Faço muita questão que o Sr. aceite esse meu convite. O promotor, claro que aceitou o gentil convite e se instalou naquele que era o ponto nobre do pesqueiro.
Paulo, um amigo do Tonhão, entrou na competição de puxa-saquismo. Abriu uma latinha de cerveja, trincando de gelada, encaixou o anzol no lacre e, segurando a vara de pescar, dirigiu o precioso líquido até às mãos do promotor. Ainda disse:
– Caro Dr. Promotor. Quando quiser outra cervejinha, só dê um assobio, que lhe enviarei com o máximo prazer.
A pescaria de barranco não é muito confortável, pois passa-se um bom tempo em posição que comprime o ventre. E inevitáveis gases que são nada raros se formam. E mesmo um promotor é um ser humano e as tais reações químicas também nele se processam. E então, o promotor disparou gases na atmosfera, fazendo com que o estrondoso ruído rompesse a calma do pesqueiro.
E o Tonhão, não deixou passar mais essa oportunidade:
– Belo peido Dr. Isso mostra que o Sr. tem boa saúde (educação..zero!).
E assim findou o primeiro dia de pesca. Logo chegou a turma que havia partido para pescar de barco e começaram a comentar o que havia acontecido com cada grupo. Os peixes que haviam escapado, os animais silvestres que haviam visto nas barrancas do rio. E o promotor…
Um dos mais velhos do grupo achou meio estranha essa história e foi dar uma de detetive pantaneiro. Caminhou pelo acampamento e aí notou algo muito estranho. Pela descrição física daquele que seria o promotor ele viu alguém que preenchia esses requisitos. Muito de leve, aproximou-se de uma pessoa do grupo e perguntou:
– Esse aí que está cortando s cabelos dos demais não é um promotor?
Seu interlocutor gargalhou e disse:
– Que nada. É o nosso barbeiro. Inventamos essa história só pra ver o que fariam uns capiaus de Esperança do Norte. Precisava ver a competição da sua turma para ver quem era o mais puxa-saco!
Pois é…meu avô sempre dizia: o mundo vai acabar em poucas categorias: pardal, tiririca, pernilongo, corintiano e puxa-saco!

Não há comentários. Seja o primeiro a comentar.

Assinar feed dos Comentários