Washington OLIVETTO

Washington OLIVETTO
Por Edson Beraldo e Sônia Cazalini

 

Whashington Olivetto

Whashington Olivetto, foto: Edson Beraldo

Ele poderia ser apenas um descendente de italianos. Mas é mais. Poderia ser apenas um publicitário. Mas é muito mais. Poderia ser apenas um homem gentil. Mas é definitivamente um grande ser humano. Washington Olivetto, natural do bairro da Lapa em São Paulo, inúmeras vezes premiado e um dos maiores expoentes do Brasil. Foi com esse curriculum e toda sua simplicidade e generosidade que nos recebeu em sua agência W/Brasil para um bate-papo descontraído, em que nos fala um pouco de sua família, suas relações com a Itália, seus prazeres e opiniões. Da paradisíaca Portofino à nossa terra brasilis, da primeira à última linha, é uma entrevista que nos enche de alegria e que agora temos a satisfação de dividir com você.

P: Qual a composição genealógica de sua família? Quais as localidades de origem?

R: É até engraçado. O meu Olivetto vem da Ligúria, próximo de Portofino. A lenda que corre na minha família – acredito que seja verdade, mas mesmo que não for é minimamente divertida – que os Olivetos com um “T” só eram muito poderosos, muito ricos e muito bonitos e tal naquela região de Portofino, que é uma região glamourosíssima da Itália. Quando eventualmente um daqueles Olivetos tinha um filho bastardo com uma camponesa, pra diferenciar, ele acrescentava o segundo “T”. Então, pela lógica, eu devo ser aí tataraneto de um Oliveto grã-fino com uma camponesa daquelas.

P: Há de sua parte uma ligação afetiva com essa raíz?

R: Ah, sem dúvida existe. Sem dúvida nenhuma. A primeira vez que eu tive a oportunidade de ir lá, pra mim foi muito emocionante. Eu era muito jovem; eu tinha concorrido ao festival de publicidade de Cannes e tinha ganho o prêmio do festival. Eu tava com 19 anos de idade e aí eu aproveitei, aluguei um carro e fui conhecer a região.

P: Que significado tem para você essa origem italiana?

R: Ah, é fascinante. Eu tenho passaporte italiano há anos, inclusive. Tenho muitos amigos seja no Consulado, na Embaixada, como tenho muitos amigos na comunidade italiana no Brasil inteiro. Nas coisas que a minha atividade envolve, a Itália é muito competente na somatória de muitas delas, que são: design, cinema, fotografia, música. Curiosamente a Itália não tem grande tradição, tá melhorando só agora, na publicidade. Mas existem muitos publicitários famosos do mundo de origem italiana, por exemplo: eu aqui no Brasil, o Jerry Della Femina nos Estados Unidos, o Alfredo Marcantonio na Inglaterra. E eu gosto de tudo da Itália, eu gosto do clima, do jeito, da gastronomia. Eu conheço bem a Itália, o que é um privilégio. A minha relação com a Itália é muito íntima.

P: Como é a sua família? Quais suas características?

R: Hoje, na verdade, com íntima ligação na minha família de origem italiana, de vivos, infelizmente, a gente tem só minha mãe, que é filha direta de italianos. Agora os meus 3 filhos: o Homero e os meus dois gêmeos, a Antônia e o Theo, têm passaporte italiano. E os três já estiveram em diferentes circunstâncias lá em Portofino. O Homero, que hoje é diretor de cinema, bem criancinha. Inclusive a primeira vez que ele ficou de porre foi em Siena, num Reveillon, com oito anos de idade. Eu dei dois copos de vinho para ele e depois botei ele pra correr naquela praça de Siena atrás das pombas. Aí passou o efeito do vinho, mas para ele é inesquecível até hoje. E os meus dois filhos bebês ano passado estiveram em Portofino. Agora, a minha relação com a Itália no cotidiano também envolve muito a comida italiana, que eu gosto muito; o vinho italiano, que eu gosto muito; a música italiana. Eu sou muito ligado à música brasileira, muitíssimo ligado a partir da Bossa Nova. Mas eu gosto muito, por exemplo, do Roberto Murolo, que é uma espécie de João Gilberto da canção napolitana.

P: Então, seu prazer pela gastronomia é hereditário.

R: Ah, sem dúvida. Até porque minha avó por parte de mãe, chamada Lucia, era uma cozinheira inacreditável. Um almoço de domingo na casa dela tinha sempre uma ave, uma carne… e ela fazia o macarrão em casa. Eu fui criança vendo fazer gnochi e macarrão em casa; fusilli feito em casa, esse tipo de coisa. Então você vai criando um prazer, vai aprendendo. É inesquecível.

P: Recentemente num restaurante famoso foi elaborado um cardápio com pratos preferidos das celebridades. Qual é o prato do Washington Olivetto?

R: É curioso. Existem dois pratos em restaurantes em São Paulo com o meu nome e que não são pratos italianos. É muito gozado. Tem o bacalhau Washington Olivetto no Antiquarius e tem o hambúrguer Olivetto no Rodeio, porque uma vez eu cismei de sugerir do Rodeio ter um hambúrguer. E esse hambúrguer é até por causa do meu filho Homero, que adorava o hambúrguer. Não tem nenhum prato meu ou com meu nome em restaurante italiano. Agora, eu tenho muitos amigos que têm restaurantes italianos. Eu sou muito amigo da família Fasano, do Giuseppe – do Vecchio Torino, do pessoal do Jardim de Napoli. Enfim, eu tenho muitos amigos nessa área.

P: E tem algum prato italiano de sua preferência?

R: Eu gosto de tudo, mas eu gosto muito da comida mais tradicionalzona. A comida italiana mais tradicional me encanta mais do que a moderna comida italiana.

P: Em geral, os apreciadores de uma boa mesa não dispensam um bom vinho. Como você se coloca em relação a isso?

R: Ah, eu, sem dúvida nenhuma, gosto muito de vinho. Aliás, eu de anos pra cá praticamente as únicas bebidas que eu bebo é vinho e champanhe. Eventualmente abro uma exceção. Assim pra um feijoada é bom uma caipirinha. E a Itália nos últimos anos, no mercado internacional, tem ganho uma projeção com os vinhos fantástica. Você pega desde os solaias, dos sassicaias, têm um prestígio infernal.

P: Dentre as suas paixões está o futebol e seu clube do coração, ao qual dedicou o livro “Corínthians Preto no Branco”. A tradição da família italiana é a torcida pelo arqui-rival Palmeiras. Como então o Corínthians entrou em sua vida?

R: Na realidade, na fundação do Corinthians tinha muitos italianos também. Depois é que se dividiu essa idéia de que o Palmeiras foi fundado praticamente só por italianos e ficou durante anos com o nome Palestra Itália. E o Corinthians como ganhou uma popularidade gigantesca, ele desconfigurou como a equipe de italianos e passou a ser a equipe de gente de todas as raças. No meu caso aconteceu o seguinte: meu pai não era um torcedor de futebol e meu tio Armando, com sobrenome italiano: Meloni, era um fanático por futebol. Então quem me encaminhou pro futebol muito criança foi meu tio Armando, corintiano fanático. Meus tios, por exemplo, por parte de mãe, eram todos palmeirenses. Eu, na minha infância, era meio a ovelha negra. Eu era a minoria.

P: Você aceitaria ser publicitário oficial do Palmeiras? Vestiria a camisa do clube e sentaria junto à mesa da Diretoria?

R: Não, assim como não faço campanhas políticas. A única campanha política que fiz foi a Democracia Corintiana, 1981. Acho muito complicada as estruturas políticas dos clubes. Não é uma questão nem do Palmeiras. Eu acho que de nenhum eu faria, e faria bem. Mas particularmente do Palmeiras, eu não taria sendo honesto se eu fosse fazer.

P: Seu bom-humor é uma característica marcante no seu trabalho e na publicidade brasileira, reconhecidamente uma das melhores do mundo. Você acredita que a nossa mistura racial tenha uma influência sobre isso?

R: Não acredito, eu tenho certeza. Tenho certeza que o grande fator criativo brasileiro é filho da miscigenação. Aliás, quando eu faço palestras no exterior eu coloco a primeira coisa, como ponto da criatividade brasileira, o fenômeno da miscigenação. A mistura de raças fez isso.

P: Na época da grande imigração houve uma forte publicidade na Itália, colocando o Brasil como um paraíso de terras e oportunidades, e que ajudou a trazer milhões de imigrantes empobrecidos e sonhadores. O que você acha da atual publicidade que é feita sobre o Brasil na Europa?

R: Eu acho que, infelizmente – sem nenhuma crítica moral, é uma crítica estética e profissional -, o que se comunica do Brasil é muito pouco e o que se comunica, na maioria, é só a carga de alta sensualidade, que é maravilhosa mas que não é a única coisa que a gente tem.

P: Se você tivesse de fazer uma campanha que abordasse a descendência italiana no Brasil e suas relações com a Itália, que aspectos você mostraria pra gente?

R: Ah, são muitos. Acho que a descendência italiana no Brasil mexeu em diversos aspectos. Desde o quadro de extrema emocionalidade que a gente tem aqui, a influência gastronômica, arquitetônica, a influência cultural do cinema italiano, que durante um grande período mostrou emoção, a vida muito bem contada. A gente tem muita coisa. Nossa, o design italiano, as coisas seja o Pinin Farina, o Ettore Sottsass… Dá pra, sem dúvida nenhuma, perceber que um pouquinho de cada uma dessas coisas influenciou visivelmente a sociedade brasileira e, particularmente, a sociedade de São Paulo. O trabalho que se faz em São Paulo tem muito a ver com com os italianos. Até existe uma preocupação agora de um grupo de se criar um Instituto Italiano de Cultura da proporção que a cultura italiana tem em São Paulo, que tem que ser maior.

P: Você é um publicitário de sucesso, renomado, premiado mundialmente e muito respeitado. Construiu tudo isso num país de terceiro mundo, atravessando várias crises econômicas, públicas e sociais. Você pode dizer hoje que sente “orgulho de ser brasileiro”?

R: É irreversível isso. Eu sempre sinto orgulho de ser brasileiro e lamento que, eventualmente, algumas vezes eu fique decepcionado por ser brasileiro. O maior elogio que eu recebi na minha vida foi de um amigo meu do exterior, que falou que eu tinha um dedo no pulso do Brasil. Então, eu dependo muitíssimo da cultura brasileira, que é essa cultura da somatória da miscigenação, dessa coisa toda, pra fazer um trabalho bom. Eu não teria feito meu trabalho tão bom se eu tivesse aceitado, por exemplo, ir trabalhar nos Estados Unidos, como me convidaram quando eu era garoto, ou na Inglaterra e tal.

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