Waldir Robbi

Waldir ROBBI
Por Sônia Cazalini

 

Waldir Robbi, por Sonia Cazalini

Waldir Robbi

Ícone da imigração no Estado de São Paulo. Assim poderíamos definir o Memorial do Imigrante. Ocupando as instalações da antiga Hospedaria dos Imigrantes, conserva viva a história de milhões de pessoas que por ali passaram durante décadas, não só através da beleza de sua arquitetura como pelas exposições temáticas, biblioteca, Maria Fumaça, bonde, eventos, réplica de casa de imigrante e, especialmente pela documentação. Por tudo isso, é passagem obrigatória dos descendentes daqueles imigrantes. Visitar o Memorial é uma viagem no tempo. E para conhecer um pouco mais sobre ele e o trabalho ali realizado fui entrevistar uma verdadeira personalidade local: Sr. Waldir Robbi. Ele é uma das pessoas mais requisitadas pelos visitantes e pesquisadores. Sempre solícito, atende e orienta a todos que o procuram. Com mais de 35 anos de trabalho junto ao Museu, apesar de sua formação publicitária, conhece como poucos sua trajetória, suas dificuldades e conquistas para levar ao público de hoje um retrato da história do Brasil, de São Paulo, de cada um.

P: Como teve início seu trabalho aqui no MI?

R: Iniciei meus trabalhos aqui em 1961. No fundo, funcionava um edifício de número 13 onde abrigava os imigrantes, uma mão de obra qualificada, que não existia no Brasil. Meu trabalho diretamente com eles começou em 1971; eu era chefe de finanças do serviço de imigrantes estrangeiros. Depois, por força de um decreto, eu fui levado ao cargo de diretor geral de atividades da parte dos migrantes. Cuidava da alimentação deles, da higienização, dos dormitórios. Essa parte da hospedaria compreendia 400 funcionários.

P: Como é o funcionamento hoje?

R: Hoje é diferente. Nós, do Museu da Imigração, somos da Secretaria de Cultura. A parte dos fundos, que dá atendimento social aos necessitados, é de outra Secretaria. Não tem ligação nenhuma com nosso trabalho.

P: A Hospedaria recebeu imigrantes de 1882 a 1978, mas somente em 1986 é criado o centro histórico do imigrante. Todos os documentos dessa época estão no acervo?

Na verdade, esse prédio foi inaugurado sem terminar em 1887 e definitivamente encerrado em 88. A documentação começa em 82 de um casarão que havia no Bom Retiro, onde abrigava os primeiros imigrantes. Essa documentação também está no nosso acervo.

P: São 150 livros de registros no acervo, além de listas de passageiros. Estas são apenas de quem passou pela imigração?

R: As listas de passageiros que nós temos até 1907, não são todas, são dos que passaram pela hospedaria. A partir de 1908, os que não passaram pela hospedaria mas desembarcaram em Santos, nós também temos as listas. Mas pra que essa pesquisa seja efetivada tem que saber a data de desembarque no porto de Santos.

P: Em 1892, a hospedaria é parte da recém-criada Secretaria de Agricultura, Aviação e obras públicas. O museu guarda documentos dos contratos dos fazendeiros?

R: Isso já está no arquivo morto, na parte superior do Memorial do Imigrante. Mas é permitido o acesso aos pesquisadores.

P: Havia um acordo com a Secretaria para os contratos com os imigrantes? Existe um arquivo sobre os fazendeiros e os serviços que aqui contratavam?

R: Existe documentação porque essa parte é da Imigração dirigida. Foi formada a Sociedade promotora de Imigração: o governo, os donos das fazendas. Eles vinham pagos por essa Sociedade. Essa documentação também faz parte do arquivo morto. Também a gente encontra alguma coisa sobre chegada de imigrantes junto ao Arquivo de Estado.

P: Existem muitas diferenças de grafias e alterações de forma de conteúdo com o passar do tempo nesses registros dos imigrantes entrados na hospedaria. Como eram realizados esses registros?

R: As pessoas que pernoitavam aqui tinham seus registros no livro da hospedaria. Em alguns casos as listas não eram feitas aqui. Algumas listas eram feitas no porto de Santos, algumas listas eram feitas nos navios e outras já vinham do porto de origem. O problema dos livros de hospedaria é a paleografia.

P: O Memorial tem atendido mais de 200 mil pessoas por ano. Qual o perfil desses visitantes? O que vêm buscar aqui?

R: Hoje a maior parte é em função da dupla nacionalidade, haja vista que a Comunidade Européia aumentou os países que entraram. Passaram pela hospedaria cerca de 70 nacionalidades ao longo desses anos; seus descendentes hoje procuram a chegada, na maior por parte, em função da nacionalidade. Pra ter um passaporte da União Européia.

P: Quais documentos o Memorial pode oferecer?

R: O Memorial hoje fornece a certidão de desembarque, que é o documento oficial do ingresso do imigrante; um certificado, que é uma espécie de diploma com quase o mesmo teor da certidão, mas sem valor oficial; e uma declaração dos dados constantes da Modelo 19 de um acervo que nos foi oferecido pela Polícia Federal.

P: Do que é composto esse acervo?

R: São fichas que originaram o registro de estrangeiro. Teve um decreto de agosto de 1938 que determinava o primeiro cadastramento de imigrante. Então ele procurava a delegacia de polícia de qualquer cidade do Brasil para fazer o seu RE, que hoje é chamado de RNE – Registro Nacional de Estrangeiros. Essas fichas estão em gavetas de arquivos.

P: Nesses anos aqui no Memorial do Imigrante, que experiências poderia passar para quem está à procura de suas origens?

R: Bom, eles nos procuram, geralmente, com pouco dados. Então, a gente orienta que eles devem começar pelo óbito do imigrante. Porque aí ele vai ter, hipoteticamente, o ano de nascimento e a filiação do imigrante. Pra se começar uma pesquisa, a gente tem que saber deles se o imigrante veio solteiro, se veio casado, se veio com os pais, a situação de chegada dele. E depois a gente orienta que eles podem fazer muitas pesquisas junto aos cartórios, junto às igrejas, junto ao Instituto de Identificação, pra saber se fez carteira de identidade, e agora, o que a gente mandava pra Polícia Federal estão em nossos acervos. A gente faz o pedido por aqui mesmo pra saber sobre o RE do imigrante.

P: Genealogia é algo que lhe interessa?

R: Ah, da minha família sei tudo. A minha mãe é arquivo vivo com mais de 90 anos. Tudo que ela me contou eu vim encontrar aqui no Museu da Imigração.

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