No mato sem cachorro

Ele era um velho professor, ou pior, segundo os alunos, ele era um professor velho. Refratário às novas tecnologias e à moderna pedagogia, sua atuação baseava-se em conhecimentos arduamente conseguidos na escola da vida e, principalmente, nas muitas tentativas frustradas e nos muitos erros. Uma martelada sua acertava o prego enquanto que outras nove acertavam os dedos. Assim era sua vida…tentar, errar, corrigir, errar, corrigir…até acertar.
Pois bem, a direção da escola tinha uma imensa gratidão pelo seu passado, mas o seu presente não tinha mais futuro. Mas, o que fazer com um tal “impiastro” – em italiano, um “estorvo”? O velho professor não servia para atividades burocráticas, pois nada entendia de computadores, de impressoras, de aplicativos – era um “homem das cavernas” em pleno século XXI.
Até que alguém teve uma brilhante ideia (o professor era do tempo em que podia se escrever idéia). A disciplina Ecologia ainda não tinha um professor responsável, e o nobre colega bem que poderia dela se ocupar, pois sempre foi um matuto e era formado em Ciências. E aí então foi a ele atribuída a tal disciplina…e, surpresa, uma dezena de alunos se interessaram por cursá-la.
Nascido e criado no campo, ele ainda sabia muita coisa sobre a tal da ecologia – embora fosse um conhecimento adquirido à moda antiga; o professor era adepto de um conhecimento obtido às duras penas (no caso das aves, claro). Conhecia muitas espécies florestais valiosas e suas aplicações medicinais e dezenas de aves cujos cantos podia reconhecer à distância.
Marcou um encontro com os alunos em uma propriedade rural, surpreendente bem conservada e situada no meio de um imenso mar verde, dominado pelos plantios de cana-de-açúcar…”e essa terra ainda vai cumprir seu ideal, vai transformar-se em… um imenso canavial).
Chegou com seu velho Corcel II, de cor dourada, batendo os pinos, queimando óleo do motor e com o escapamento furado…quando chegaram os alunos (ou seriam agroboys?), era pura ostentação…só camionetes de última geração..4×4, diesel, som altíssimo – só rock rural. Tanto alvoroço, que um bando de anus pretos fugiu desesperado.
Agora ele estava em seu habitat – agora as coisas seria da sua maneira. Organizou os grupos, verificou as merendas e o suprimento de água, e se os calçados estavam adequados…e não estavam, pois quase todos os alunos calçavam tênis importados de renomadas marcas esportivas – mas, que no mato, são praticamente inúteis se os incautos pisarem em um espinho de quina-cruzeiro, de macaúba, de mamica-de-porca, de arranha-gato..e tantos outros.
E aí iniciaram a caminhada pela trilha na mata densa…e o professor então finalmente se encontrou em seu habitat. Dizia que estava quebrando uns pequenos ramos para marcar o caminho de volta e que prestassem atenção ao tipo de vegetação por onde andavam, e que ficassem atentos ao canto dos pássaros, pois estes alertá-los em caso da presença de algum predador.
Mas, em todo o grupo de alunos existe algum deles que gosta de aparecer mais do que os demais. Havia então um garoto que era filho de um rico empresário rural; já desceu de sua camionete com um Iphone de última geração, recém comprados nos EUA. Quando o professor comentava sobre o posicionamento da caminhada em relação aos pontos cardeais – braço direito apontado para o nascer do sol – o norte estará em sua frente; o aluno dizia: no meu aplicativo informa que devemos seguir o azimute de 30 graus.
E quando o professor apontava uma determinada árvore, o aluno já informava ao grupo qual era o nome científico da mesma, a sua localização por coordenadas satelitais, as aplicações para essa espécie e quais eram as coordenadas da próxima árvore pertencente à mesma espécie.
E assim os alunos foram ficando cada vez mais fascinados pela high tech – ninguém mais escutava o que dizia o professor – apenas esse papagaio virtual merecia a confiança do grupo. E aí então o professor se calou, engoliu sua amargura e se sentiu pela primeira vez um verdadeiro dinossauro tecnológico. E seguiu caminhando de cabeça baixa pela trilha, cada vez mais fechada e cheia de ameaçadores cipós. Mas, continuava quebrando os raminhos…
Então começou a escurecer e era o momento de retornar à base. O aluno então informou ao grupo – agora é moleza, deixem comigo: é só informar as coordenadas da partida e vamos nessa!
Mas, ainda não inventaram uma bateria de grande duração e aconteceu que, no meio do caminho de volta, a tela do sofisticado equipamento simplesmente apagou… e agora? O que fazer? Pra onde ir? Onde estamos?
E escureceu de repente…e começaram os piados lúgubres das corujas e dos urutagos, e outros estranhos sons se ouviram na mata…e os alunos então sentiram medo…estavam literalmente no “mato e sem cachorro”. Ou melhor, sem celular!
Então o aluno humildemente disse ao professor: Mestre, leve-nos ao ponto de partida…já não sei onde estou e nunca dormi no mato; tenho alergia às picadas de insetos e já estou com o corpo coberto delas… tenho muito medo! E alguns alunos começaram a choramingar…
O professor sorriu levemente na densa escuridão que o rodeava e então sacou do bolso uma pequena lanterna, dizendo: – sigam-me…e observem os galhinhos que quebrei para marcar a nossa volta…e então levou todo o grupo em segurança até o local da partida.
Cada um se arrancou com sua potente máquina…ninguém ficou para ajudar o professor a fazer o Corcel II pegar no tranco…mas ele estava, depois de muito tempo, feliz consigo mesmo:
– Ainda sirvo para algo nesta vida!

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