Geraldo DI GIOVANNI

Geraldo DI GIOVANNI
Por Rose Signorini


Geraldo Di Giovanni

Geraldo Di Giovanni, foto: Rose Signorini

 

 

 

 

A imigração italiana para o Brasil inicia-se “oficialmente” em 1875. Quase 3 milhões de italianos entraram no país e deixaram sua marca desde a contribuição no desenvolvimento econômico, passando pelos valores de família e religiosidade até o idioma, culinária e cultura. Assimilamos suas características, assim como seus descendentes assimilaram a cultura brasileira. E de tal forma, que hoje somos simples e principalmente brasileiros, sem o rótulo discriminatório ítalo, afro, hispano, nipo-brasileiros. Muito embora o legado desses imigrantes italianos tenha sido muito significativo, o que realmente conhecemos de sua história e Pátria natal? O que sabemos da Itália atual? Por que nós brasileiros desejamos a cidadania advinda de nossos antepassados quando tão poucos conhecem e valorizam sua própria história familiar? Qual o significado da aquisição dessa outra cidadania? Distante dos sonhos e das ilusões, como é a realidade do brasileiro na Itália? Numa conversa agradável, o Prof. Geraldo Di Giovanni procurou dar sua visão sobre estas questões e outras mais, tentando traçar sempre um paralelo entre Brasil e Itália. Como um legítimo descendente de italianos, ex-morador da Península, sociólogo e brasileiro acima de tudo, tem muito a nos dizer!

P: Poderia se identificar e falar sobre a sua estadia na Itália?
R: Sou Geraldo Di Giovanni, sou professor universitário aposentado e pesquisador, na ativa, do Núcleo de Estudos de Políticas Públicas da Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP. Sou casado com uma descendente de italianos e espanhóis. Tenho uma filha. Em 1992 e 1993 recebi uma bolsa para estudos de pós-doutorado em Ciência Política, patrocinada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo – FAPESP, e fomos viver na Itália, em Firenze. Naquela ocasião já conhecia a Itália, onde tinha estado por algumas vezes a trabalho e a passeio. Falava o italiano razoavelmente bem, assim como minha mulher e minha filha. Desse ponto de vista, não tivemos dificuldades. Alugamos um apartamento no quinto piso, sem elevador, de um edifício renascentista; minha filha, que tinha então 12 anos, foi matriculada na escola mais próxima; minha mulher passou a fazer alguns cursos e eu comecei a trabalhar numa instituição chamada AMELA, que era um centro de pesquisas em parte dedicado à América Latina. Ganhei um escritório num lindopalazzo do século dezenove onde passava as manhãs e as tardes. Passamos a ter, assim, uma rotina de vida e de trabalho e acabamos por integrar-nos aos poucos na vida da cidade. Fizemos amigos italianos, recebíamos amigos brasileiros com muita freqüência. Minha filha que freqüentava as casas de suas colegas italianas. Em pouco tempo já falava com um perfeito sotaque de adolescente fiorentina: falando muito rápido (adolescente) e “mangiando la c” (fiorentina). Uma cidade como Firenze é um verdadeiro e constante convite à integração na cultura italiana. Além dos museus e galerias, há muitos edifícios particulares que possuem muitas obras de arte no seu interior. São afrescos, traços arquitetônicos, escadarias e, até mesmo, simples torneiras que se revelam ao observador mais atento como verdadeiras obras de arte, testemunhos de uma história que século após século, vem marcando a humanidade. A Toscana, embora tenha uma forte e orgulhosa identidade regional, é muito representativa da Itália e da cultura italiana, porque ao lado de milhares de estrangeiros que ali trabalham ou estudam, há também milhares de italianos que migraram, seja do sul, seja do norte. Ao lado da tradição típica da região em termos de culinária, grandes vinhos, eventos, festas religiosas e laicas típicas e dois excelentes centros universitários, pudemos conviver com outros italianos que nos fizeram perceber a rica diversidade de um país que, em um dado momento de sua história viu uma grande parte de sua população emigrar para mundos desconhecidos e que, naquele momento, quando lá vivíamos, passava a ser pólo atração de migrantes que ali buscavam alguma coisa que mudasse o rumo ou completasse o sentido de suas vidas. Embora temporariamente, eu era um deles.

P: Quando você conseguiu a sua cidadania italiana o seu sentimento de brasilidade e de italianidade gerou algum conflito ou você se acomodou bem a esta duplicidade?
R:
Quando ganhei a bolsa de estudos estava tratando da obtenção de minha cidadania. Já tinha todos os documentos, feito a correção de nomes, etc. Como fui para a Itália antes disso, até hoje não concluí o processo, que, num certo sentido foi bom. Não vejo a obtenção da cidadania como duplicidade ou ruptura com a cidadania brasileira. A ruptura acontece quando alguém tem fortes motivos para deixar seus país de origem: crises sociais, como na Itália do século XIX; desemprego em massa, como na Itália do pós-guerra; questões políticas, como grandes levas de exilados ou, ainda, problemas religiosos, como os que os pilgrimsamericanos enfrentaram. Se você passa a encarar a situação atual como um processo, como uma continuidade histórica, a situação fica muito mais branda. Vejo os brasileiros que migram para a Itália como um grupo de pessoas que, a partir de algumas situações vividas, procuram sair de seu país com um destino certo: Itália. Não estão indo para qualquer lugar, mas para um país com o qual, de forma mais próxima ou mais longínqua, mantêm algumas identidade. Nunca serão verdadeira ou totalmente italianos, nem deixarão de ser brasileiros. Trata-se de estarem mais, ou menos, adaptados à cultura e à vida italiana. E isso depende de vários fatores, tais como o tipo de trabalho que irão ter, o fato de possuírem ou não grupos de apoio na Itália, o tipo de permanência e, até mesmo o gênero e a cor da pele. O mais importante é a forma como serão recebidos pelos italianos e essa forma depende de todos os outros fatores. Durante a minha estada em Firenze nunca me senti italiano. Não é uma questão de vontade. Nem que você queira, a circunstâncias não deixam.

P: Em todo o país, existem muitas pessoas interessadas em conseguir o passaporte para tentar a vida na Itália, levando consigo muitos sonhos e esperanças, assim como nossos antepassados ao sonharem com a América. O que você, com sua experiência, aconselharia a essas pessoas?
R:
Meu conselho é que levem os sonhos e as esperanças, mas que não levem ilusões. Apesar da beleza do país, da quase constante cordialidade do povo, da alegria, a Itália é um país muito difícil para alguns tipos de imigrantes. É difícil particularmente para aqueles que não têm profissão definida, têm pouco dinheiro, têm dificuldades com a língua e não são brancos, segundo os critérios italianos e europeus. O leitor poderá pensar que estou dizendo implicitamente que na Itália e, por extensão, na Europa, existem preconceitos sociais e raciais. É exatamente isso que estou dizendo. Até porque eles não dizem. Não pensem que haverá uma chuva de empregos, que as portas se abrirão para abrigá-los, e assim por diante. Minha impressão é que uma percentagem muito pequena dos imigrantes é realmente bem sucedida. Como a situação no Brasil não é boa e vida está difícil até mesmo para certos segmentos da classe média, a tendência é exagerar nas virtudes e possibilidades da vida no exterior.

P: Sobre o critério jus sanguinis adotado pela Itália. Qual sua opinião sobre ele e como acha que os italianos natos o vêem?

R: Pude notar que os italianos têm posições contraditórias quanto ao critério. De um lado, eles possuem uma espécie de “consciência pesada” em relação àqueles que emigraram, seja no século XIX, seja no século XX. Existe algo como uma “culpa nacional” pelas crises que obrigaram milhões de pessoas a deixar a península em busca de um mundo desconhecido. Desconhecido, mesmo. Imaginem que muitas famílias vinham para a América como se a América fosse um piccolo paese. Não sabiam sequer onde iriam aportar, se no Rio, se em Buenos Aires ou Nova Iorque. Assim, muitos italianos apóiam o critério em nome dessa espécie de reparação, de justiça tardia. De outro lado, existem visões mais realistas, até mesmo opiniões e brincadeiras engraçadas. Alguns dizem: “se todos retornarem com seus descendentes a península afunda”. Não conheço o número de italianos e seus descendentes espalhados pelo mundo. Imagino que, apenas no Estado de São Paulo, existam cerca de cinco milhões. Quantos haverá no mundo inteiro? No Brasil, na Argentina, nos Estados Unidos, no Canadá, na Austrália e por aí afora? Então, muitos dizem: “não há lugar para todos, o direito precisa ser limitado”. E creio que esta limitação já acontece na prática, pois a Constituição outorga o direito mas não a forma de concedê-lo. Será o longo e penoso caminho burocrático para obtenção de documentos e do passaporte “natural”? É obvio que existe uma barreira burocrática intencional.

P: Existe uma forte pressão para que a cidadania seja condicionada à aprendizagem do idioma italiano. Qual a sua posição sobre este assunto?

R: Isso é uma grande besteira. Em primeiro lugar, porque, para nós, de língua latina, com três meses de estudo e dedicação estamos falando o italiano e desenvolvendo um bom nível de comunicação cotidiana. Para nós, o italiano é fácil; qualquer manual e um pouco de esforço nos põe in grado para conviver razoavelmente bem. Em segundo lugar, não podemos nos esquecer que até 1950 quase metade da população da Itália não falava o italiano. Falava dialetos. Existe até uma piada: quem unificou a Itália não foi Garibaldi, foi a televisão, a partir de 1950. Ou seja, na questão da imigração, no caso, a língua não é o maior problema.

P: A grande maioria reclama da falta de vontade da própria família, que às vezes usa até de deboche, quando pedem informações sobre os antepassados italianos. A que se deve isso, em sua opinião?

R: Na verdade, não são muitas as famílias que dispõem de informações sobre seus antepassados italianos. O fato é que uma boa parte desta memória está perdida. Na realidade, os descendentes só começaram a se interessar por suas origens e pela cidadania italiana nos anos 80, quando a crise se instalou. Durante muito tempo, para a grande maioria das famílias, as origens não tinham muita importância. Poucos guardaram documentos, poucos sabiam os locais e as datas de nascimento de seus antepassados. Os registros oficiais, apesar dos esforços, também são muito precários e a probabilidade de incorreções nas informações é muito grande. Assim, a busca de informações tornou-se uma espécie de garimpo que exige tempo e, muitas vezes, algum dinheiro. A recusa e o eventual deboche de algumas famílias revela muito mais uma total falta de informações do que má vontade ou espírito de deboche. Às vezes a ignorância específica cria suas próprias defesas. Embora haja muitos bons estudos sobre a imigração italiana no Brasil, é preciso voltar a dizer que o interesse pela Itália é relativamente recente. Os mais velhos sabem disso. Basta perguntar às famílias quantas pessoas da geração que hoje tem 50 ou 60 anos se interessavam em migrar para a Itália. Na minha família não houve ninguém. E, olhe, minha família tinha vínculos com parentes, correspondiam-se, e mantinham algumas tradições italianas. O interesse só renasceu quando a situação econômica piorou e as pessoas começaram a ver no exterior suas chances de sucesso. Creio que nisso está a origem do surto migratório que ainda vivemos. É preciso lembrar também que o ensino da língua, que é um forte vínculo com o país de origem, foi proibido durante a guerra. Isso significa que as segundas e terceiras gerações pouco falaram a língua italiana. Na minha família, apenas uma tia falava a língua, pois tinha sido professora de italiano na Società Italiana de Rio Claro, em São Paulo. Uma segunda tia e meu pai não falavam quase nada. As próprias crianças das famílias descendentes debochavam quando algum velho fala la macchina, em lugar de automóvel; soddisfato, em lugar de satisfeito, etc.

P: Ainda sobre o assunto, você teve dificuldades em descobrir suas origens ou a memória e tradição italiana que sua família manteve viva e forte facilitou tudo?

R: A resposta vai na linha da anterior. Muitas famílias mantiveram viva a tradição, mas poucas a mantiveram viva e forte. Claro que, no meu caso, o nosso cotidiano evocava muito a Itália. Hoje, com mais idade, com o senso de observação um pouco mais agudo e depois de ter vivido na Itália, percebo essa influência com mais clareza. A comida, os almoços familiares de domingo, os dias de festas religiosas e seus pratos típicos, as rezas, os dias de luto, o machismo dos homens das famílias, enfim, muitas coisas que vim a descobrir depois, já na Itália, faziam o nosso antigo universo familiar muito italiano. Aprendi como minha tia algumas canções napolitanas. Lembro-me que um tio tocava na vitrola La strada del Bosco, com Gino Bechi, e outras canções clássicas que continuam sendo muito ouvidas na Itália de hoje. Eventualmente, dependendo da quantidade de vinho ingerida, os adultos nos obrigavam a cantá-las, na esperança que dentre nós houvesse um grande tenor ainda não revelado. Acho que tudo isso criou uma predisposição em nossas almas e mentes em relação às coisas italianas. Coisas de uma Itália que foi se desnudando para minha geração com o ciclo realista do cinema italiano no pós-guerra. Vittorio de Sica, Aldo Fabrizzi, Totò, Ettore Scola, Sofia Loren, Gina Lollobrigida e, mais tarde, Fellini, Mario Monicelli, Rita Pavone, Sergio Endrigo, Domenico Modugno, Vittorio Gasmann que, como tantos outros, foram modelando, lapidando a imagem da Itália que formaríamos na vida adulta. Creio que essa “italianidade” parcial passa muito por aí.

P:Você teve que alterar o nome no processo de retificação. Isto lhe trouxe algum aborrecimento?

R: Não, pelo contrário. Fui à forra contra um imaginário oficial de imigração brasileiro no século XIX, que mal ouvia o que diziam os imigrantes e lhes escrevia o nome de qualquer jeito, sem pensar que isso era sua verdadeira e única identidade como seres humanos. Aproveitei também para me livrar de um homônimo que andava cheio de protestos em várias praças e que me atrapalhava a vida.

P: Você sente que ao ter adquirido a cidadania italiana, pelo lado sentimental, resgatou uma dívida com seus antepassados que dela vieram?

R: Não creio que seja a obtenção da cidadania que faz o resgate sentimental. Para mim, o resgate foi feito quando cheguei, no verão de 1988, ao pequeno paese onde eles nasceram (Civita Nuova del Sannio, província de Isernia) e fiquei imaginando o que os teria feito sair dali, daquele lugar ainda de difícil acesso, no alto da montanha, longe de Napoli que, na época, mais ou menos 1890, não deveria ser servido por estradas e transporte confortável. Como o teriam feito? Por que o teriam feito? Só poderia ser por coragem ou desespero Assim mesmo, o fizeram. E eu estava ali, profundamente emocionado, como uma prova viva de que eles haviam feito.

P: Qual seria, em sua opinião, a maior diferença entre os tratamentos dados pela Itália aos ítalo-argentinos, ítalo-americanos e ítalo-brasileiros? Existe algum preconceito em relação aos brasileiros na Itália?

R: Acho que a diferença entre os italianos e os demais seres humanos é que aqueles são demasiadamente humanos. Ao mesmo tempo são generosos e cruéis, brilhantes e opacos, enfim, possuem grandezas e misérias. Assim sendo, é claro que preconceito existe. Como sugeri antes, existem preconceitos contra todos os tipos de imigrantes e tais preconceitos se manifestam de modos diferentes. Uma vez, na fila daquestura, percebi que os negros do norte da África eram muito mal tratados pelos policiais, que chegavam até a empurrá-los. Com os orientais o tratamento era um pouco mais brando. Com os brancos, de várias origens, chegava a ser cordial em alguns momentos. Com os brasileiros, além da raça e da cor da pele, outros fatores influenciam negativa ou positivamente. O termo brasiliano é usado alternativamente a viado ou travesti. Assim, quando alguém se apresenta como brasiliano, sempre há sorrisinhos e comentários. Positivamente, as conversas giram em torno de futebol e música e… mulatas. As mulatas são capítulo (trágico) à parte. Além de uma preferência explícita por prostitutas brasileiras pardas e mulatas que, para muitos italianos são as brasileiras típicas, existem coisas estarrecedoras em torno do estereótipo. Muitos jovens e adultos italianos que vem passar férias no Brasil acabam se apaixonando por boas moças de famílias, pardas ou mulatas, casam-se com elas e levam-nas para sua terra natal. Em geral, são moças com pouca instrução que, quando chegam à Itália, não têm formação para nenhum emprego e tornam-se verdadeiras donne di casa, no sentido italiano: empregadas domésticas. Não aprendem a falar corretamente o italiano e, paulatinamente, perdem sua capacidade de falar português. São chamadas pelos italianos de Jerusas, numa referência à mulata consagrada por Jorge Amado. Quando a paixão inicial se arrefece, em geral, as coisas complicam.

P: O que você, como ítalo-brasileiro, acha de um movimento para ajudar no resgate da memória e da cultura dos imigrantes italianos?

R: Eu veria com muita alegria, pois creio que mais que o resgate das tradições e cultura temos muito que aprender com os italianos de hoje. A Itália, apesar de alguns problemas que pintei com cores fortes, é um exemplo de sociedade em termos de desenvolvimento econômico, social, cultural e, particularmente, em termos de humanismo. Isso precisa ser aproveitado em nossa reflexão sobre o Brasil que queremos. No fundo, o que todos desejamos é um país que respeite seus filhos, lhes garanta proteção social e emprego. Queremos um país do qual os nossos filhos não precisem migrar em busca da felicidade. Assim como a Itália é hoje.

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