Frei Rovilio COSTA

Frei Rovílio COSTA
Por Virginio Mantesso

 Frei Rovílio Costa

“Hospedar pessoas que trabalham com a genealogia não é hospedar apenas aquelas pessoas, mas milhares de pessoas que trazem consigo, já que se nós falamos hoje de uma pessoa, nós falamos de uma média de mil pessoas. E quando a gente recebe pessoas que falam de milhares de pessoas, nós podemos dizer que chegamos até a milhões de pessoas. Hoje o elemento mais importante da antropologia, da história, o estudo da genealogia porque é aquela que aprofunda a identidade de que todos nós precisamos para participar, enriquecendo o mundo.” Este é Frei Rovílio Costa… Nascido em Bento Gonçalves (RS) em 1934, criado em Veranópolis (RS), cidadão brasileiro e italiano, frei Capuchinho desde 1960. Licenciado em Filosofia e Pedagogia, mestre em Educação, Livre Docente em Antropologia Cultural. Ex-diretor da Escola Superior de Teologia São Lourenço de Brindes em Porto Alegre. Professor, ativo na vida religiosa, é um dos baluartes do resgate, conhecimento, estudo e preservação da história da imigração italiana e da cultura ítalo-brasileira no Rio Grande do Sul e em todo o Brasil. Foi considerado por Marcello Paccini, da Fondazione Giovanni Agnelli, “um companheiro de estrada indispensável e inesquecível”.Fundador e diretor da EST Edições, ele próprio diz que sua grande profissão é a de “amigo do livro”. É quase impossível determinar o número de livros que editou nas mais variadas áreas do humanismo: filosofia, história, teologia, antropologia, estudos sociais; as estimativas são de que ultrapassem dois mil, sendo cerca de 600 dedicados à imigração italiana. Como usa uma linguagem clara, objetiva, quase coloquial; aprender lendo seus livros é um prazer facilmente alcançado. O sucesso é uma constante nas suas publicações, das quais muitas tiveram várias edições. Frei Rovílio é um verdadeiro líder, carismático, sempre disponível, com o puro espírito franciscano – simples, alegre, feliz por servir e promover a paz e o bem. Como disse um admirador, Frei Rovílio é um exemplo da síntese entre ciência, fé, amor fraterno e bom humor.

P: Há exatamente três décadas, com um livro aparentemente despretencioso – “A imigração italiana no RS” – o sr. iniciava aquela que é hoje a maior coleção brasileira sobre esse tema. Como nasceu esse projeto e o sr. antevia esse desenvolvimento, que é a sua editora?

R: Esse projeto nasceu propriamente em 1962, quando eu fui pra Vila Ipê – que é hoje município de Ipê – lecionar. À tarde eu sempre ia fazer serviço de correio, visitar pessoas doentes. E de repente tinha uns grupos tomando uma cachaça, vinho, qualquer coisa. Geralmente era cachaça porque fora das refeições o italiano toma cachaça na bodega e não vinho. E contando histórias. E essas histórias é que são importantes, essas que vão trazer a beleza da vida e também o evoluir da própria história. Então eu fui elaborando pequenos textos para aquele jornal Correio Rio Grandense, de Caxias, e mandei pra lá. As minhas entrevistas não foram publicadas. Daí veio o 1975, centenário da imigração italiana. Reelaborei a partir daquelas anotações aquele livro primeiro que foi “Imigração italiana no RS” e a partir daí comecei, através do jornal mesmo, escrever “Vita, Storia, Frottole”. E ali até hoje vivo escrevendo semanalmente esse seriado “Vita, Storia, Frottolle”, “Retorno do Nanetto Pipetta” e hoje, “O italiano que está em você”. Sempre onde eu vou… estou pegando mais gurizada agora; para motivar tomarem consciência de si mesmos e de sua etnia. Então me parece que é uma maneira de você envolver a comunidade com a sua própria história.

P: Mas como é que a coleção se ampliou a esse volume?
R:
Thales de Azevedo (de “Italianos e gaúchos”), quando eu era aluno aqui em Porto Alegre, veio pesquisar aqui e eu entreguei a ele todos os textos que os frades franceses escreveram sobre o RS. Ele ficou quase um mês no convento lendo esses textos e anotando. Quando saiu o livro, eu olhei: praticamente ele formou o livro dele em cima desses textos. Depois eu tive em mãos trabalhos, por exemplo, do Olívio Manfroi. Livros tecnicamente perfeitos, científicos, tudo, mas eu pensei: se eu der pra minha mãe esse livro, ela não vai entender nada e nem vai saber de quem está falando. Então, apressadamente, retomando novamente as tais anotações, é que eu concorri com “Imigração italiana: vida, costumes e tradições” para o biênio. E estranhamente conseguiu a primeira menção honrosa. Era o reconhecimento, com mais ou menos esse comentário: “Nós achamos muito bom o seu trabalho, só que é uma coisa baseada apenas na informação oral, a gente não tem parâmetros para dizer que é certo ou não”. Daí começou desenvolver esse caminho. Obviamente vai te dar equívocos de datas, mas é muito pouco importante se eu disser que um fato tal aconteceu em janeiro, depois de fato aconteceu em julho. Isso é pouco importante porque a vida não está cifrada naquelas datas; a vida está cifrada no fato e na maneira como nós a vivemos. Até é covardia criticar um fato passado e não se envolver com ele.

P: O sr. tem hoje uma coleção maravilhosa com alguma coisa como 300 livros diretamente focados na imigração italiana. Há algum desses livros que considera especiais? Há alguns que o sr. recomendaria?
R: Do antigo ao novo tem um livro: “La punta della storia
”, que é do Carlo Castagna. Esse livro acho que para entender a Itália, porque é “Chiacchiere con l’Italia di ieri. Chiacchiere con l’Italia di oggi”. São dois volumes. Para conhecer a Itália no momento da imigração, a situação da Itália e um pouquinho a imigração no mundo, tem um livro chamado “Storia dimenticata”, que é do Deliso Villa. Esse dá panorâmica da situação política, econômica, comercial, distribuição de terras, empregos, não empregos, também o envolvimento das guerras na Itália. Quanto a livros aqui no Brasil, que traz uma coisa genérica, analítica, tem o livro do Olivio Manfroi, “Imigração e colonização”. Depois claro, o Thales de Azevedo também. Aquilo que poderia ser o melhor ainda não foi escrito.

P: Como é que o sr. compara a situação para o Rio Grande e para os outros Estados, seja do ponto de vista histórico, seja do ponto de vista da comunidade atual?
R:
O italiano podia vir para o Estado que quisesse; de qualquer maneira vinha para o Brasil. Depois, seguramente havia umas conduções também, interesses. Por exemplo, é muito falado, não sei que comprovações existem disso, de que fazendeiros de SP aliciavam imigrantes para irem às fazendas de café. Os que vieram aqui é um número pequeno. São 80, 120 mil, no máximo. Lá, vocês ultrapassam num ano. O imigrante até preferia a fazenda de café, porque ele vinha, tinha onde parar, tinha garantida a comida e tinha algum trabalho pra fazer. Ele não estava solto, não estava ao próprio bel prazer; enquanto vindo ao RS tinha que administrar uma… Eu fui visitar famílias que foram sempre giornaliero. Era uma situação difícil você se imaginar num país diferente, com duas colônias de mata, tendo que começar a fazer a casa, encontrar uma fonte para água potável, abrir uma estrada. Administrar tudo isso para um giornaliero não tinha, não cabia. Ele só sabia ser empregado, ser dependente. E nisso também tem que resgatar um pouquinho aquele conceito dos fazendeiros de café, que todos são exploradores. Pode ser isso de se espantar, mas foi um momento importante de poder chegar num país e dizer: estou em casa. Mesmo sem saber a língua, sem nada, mesmo tratado injustamente, seja como for, eu estou em casa.

P: E isso se reflete hoje, de alguma maneira, nas comunidades gaúchas e dos outros Estados?

R: O êxodo rural nas colônias italianas é uma coisa estupenda. Praticamente poucos, a não ser grandes fazendeiros que foram comprando dos luso-brasileiros as fazendas, as áreas de campo. Onde faz a fronteira, os campos de Vacaria, os campos de Bom Jesus, praticamente hoje é de descendentes de italianos. Antigamente era de luso-brasileiros. Porque os descendentes de italianos queriam se estabelecer e progredir, não importava de que maneira. Então eles iam atrás de onde ganhar mais e produzir mais. Aqueles que evoluíram na agricultura foram tomando as propriedades maiores e hoje, produção em extensão. Aqueles que permaneceram na colônia iam vender um pouquinho de batatas, mas para possíveis três ou quatro compradores. Então os sonhos, as utopias é que vão dirigir esse vai e vem, esse êxodo. São Paulo – se fosse a história da imigração italiana assim personalizada, na base da informação oral – tem aquelas famosas histórias da fazenda do Antonio Prado, que era cercado, que era vigiado para os colonos não sair etc. Tudo isso tinha que ser estudado sobre um outro ângulo também que não apenas de um certo preconceito.

P: No texto 1 daquela série “O italiano que está em você” o sr. tem uma frase que eu acho muito interessante: “Quando se diz que alguém é bairrista, se pensa em algo negativo. Ao contrário. É o bom bairrismo que faz a diferença, que estrutura a identidade, que é o antídoto à globalização inconseqüente, que faz as diferenças italianas se imporem na Itália e no mundo”. 3, 4 ou até 5 gerações depois da chegada dos imigrantes persiste esse bairrismo ou regionalismo original dos imigrantes ou é válido pensar em descendentes de “italianos”, um conceito que, na Itália, apenas começava a se formar na época da grande emigração?

R: O conceito de italianos eles não têm nem hoje. Aqui no RS você tem os moraneses; você nem tem calabreses, você tem moraneses. Digo: “Vocês que têm que escrever um livro sobre Morano”. Mas ninguém deles tenta escrever. Porque se alguém escrevesse, outro grupo – familiar, no caso – vai dizer que está errado. Isso seria o defeito de um bairrismo e ao mesmo tempo é a qualidade. Quer dizer, na hora que tirar o espírito de competição, o espírito de briga, o espírito de apego a seu grupo dos italianos, tu tira a italianidade, porque vive disso. Bairrismos que nunca existiram começam a existir agora. Porque a Itália está interessada pelo RS como está interessada pelo Brasil. A Itália da política.

P: Se o bairrismo nunca existiu mas pode existir agora, o que dizer do fascismo?

R: Quem é que vai se declarar fascista hoje? Os partidos de extração neofascista eles têm uma aceitabilidade enorme na falsa Itália. Os descendentes não sabem nada absolutamente o que significa aquilo. Só que as pessoas vêm aqui com todo aquele élan, aquela utopia, aquele sonho.Eu fui convidado a participar do Instituto Histórico de S. Leopoldo de alemães. Daí eu me dei conta que eram todos mais ou menos de extração nazista. Se italianos e alemães não fossem nazi-fascistas não estariam aqui interessados pela germanidade e italianos interessados pela italianidade. Nós somos e isto é importante, e podemos contribuir com os outros. Então vamos fazer com que os outros venham pra cá enquanto nós vamos pra lá.

P: Na prática, o que que o sr. diria que é ser ítalo-brasileiro hoje? Levando em conta as duas grandes comunidades que o sr. conhece bem: a gaúcha e a paulista, que têm características diferentes?

R: Tem diferença e é bom que sejam diferentes, que continuem diferentes e que gaúchos, catarinenses, paranaenses, paulistas, Espírito Santo, Bahia e Minas, particularmente, que foram os segmentos mais iniciais, com volume significativo de imigrantes, trabalhem em cima da sua italianidade. Meu avô é ítalo-gaúcho-brasileiro porque ele nasceu na Itália, veio ao RS, então se tornou gaúcho e brasileiro. Eu sou gaúcho-brasileiro-ítalo. Eu sou paulista-brasileiro-ítalo, então eu vou trabalhar em cima da “paulisticidade”, da italianidade paulista, da italianidade gaúcha, que vão ter ingredientes novos e diferentes. Inclusive para nós revitalizarmos o nosso próprio país. Não vamos fazer clonagem da Itália para cá nem clonagem daqui para a Itália, mas levar valores, mas intercambiar valores e italianidade, não adotar know-how, adotar sistemas de fazer, de pensar italianos. E nós nos afirmarmos como italianos do mundo, italianos gaúchos-brasileiros-ítalo.

P: Como é que o sr. vê a atual “febre” de procura pelo reconhecimento da cidadania?

R: Essa febre de cidadania, da parte da Itália, é para ter cidadãos italianos. Uma Itália estéril e uma Itália que politicamente quer colocar sua presença no mundo. Se tiver muitos cidadãos em São Paulo mais Buenos Aires paparicados pela Itália, que vão e vêm, que se dizem italianos e que são, seguramente, vencedores (não é o agricultor que mora lá no interior plantando maçã que vai fazer cidadania, que nem sonha ir pra Itália e menos ainda ser político italiano), então, é muito melhor do que manter uma colônia, que vai ter conflito permanente amanhã e sempre. É uma maneira inteligente de se tornar presente no mundo. De qualquer maneira, mesmo que a Itália não fizesse isso nós tínhamos esse direito à cidadania italiana por sermos descendentes de italianos.

P: Quais são as suas recomendações para aqueles não-gaúchos – na medida em que no RS a cultura ficou bem mais preservada através da língua, mas em SP nós perdemos isso – para conhecer, valorizar e “aprimorar” a nossa italianidade brasileira?

R: Eu disse lá no Vêneto: “Que adianta vocês dizerem ‘nós somos vênetos, porque o Vêneto tem tal coisa, o maior progresso da Itália, não sei o quê’? Mas o que que é ser vêneto, que diferença tem de outro ser humano ser siciliano? Tem diferença nenhuma. Se vocês não tiverem o distintivo fundamental, antropologicamente, que é a língua, vocês não são nada”. A região está discutindo a aprovação de uma grafia pro Vêneto. Nós aqui já demos essa grafia. Uma homografia e não uma homofonia porque o talian é um intercâmbio de vários dialetos. Uma homofonia tiraria as características e as possibilidades do cultivo, por exemplo, do cremonês, do milanês, do bergamasco. Mas a raiz, a grafia e a raiz são as mesmas, então temos que trabalhar em cima do que é a origem da língua e da sua grafia e não das palavras diferentes. A palavra que remanesce é aquela palavra que está no teu coração, está no teu sentimento. Por essa e depois por leitura tu vai vendo. Assim tu vai reconstituindo. Acho que São Paulo desenvolvendo um pouquinho os falares – calabreses, napolitanos, de toda parte da Itália – vai fortalecer uma italianidade segura, sadia, comunicativa, interessante; porque você fazer uma festa em português é uma coisa, fazer uma festa em dialeto é outra, em dialeto e português é outra ainda.

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